O objetivo do presente texto é tecer algumas considerações sobre a seguinte questão: a leitura tem um papel no projeto de vida, qual? Este papel se concentra na planificação ou na própria concretização do projeto? Os dados e as citações mencionadas abaixo foram extraídos do artigo de John Allemang e publicado no jornal “The Globe and Mail” (Jornal Nacional do Canadá), em 12 de janeiro de 2010 – ainda que o mesmo seja mais voltado à indústria dos livros.
Primeiro vale citar algumas informações. Quanto tempo você lê por dia? Há um ranking entre os países, cuja metodologia desconheço, mas ainda assim pode dar alguns referenciais, colocando a Finlândia em primeiro lugar, com 46 minutos dedicados por nacional à leitura diária, depois vem o Canadá, com 40 minutos, Austrália 39, Alemanha 38, Noruega 36, Suécia 32, Reino Unido 26, França 23, EUA 21, Itália 18, Espanha 15. E dificilmente uma pessoa que lê 15 minutos por dia, insuficiente para ler razoavelmente um jornal, não poderia ampliar mais meia hora – ao menos de início.
Ainda assim, é interessante notar que a leitura pode ser um exercício meramente mecânicos. Mesmo no Canadá (país entre os primeiros no Índice de Desenvolvimento Humano), entende-se que a população tem competências inadequadas de leitura. Vale lembrar os progressos brasileiros sobre analfabetismo, ao mesmo tempo em que se desvela a gravidade do analfabetismo funcional. Uma questão levantada sobre o problema da leitura, pouco enfrentada nas salas de aula diz respeito à compreensão, o entendimento dos textos. De modo que a leitura é um primeiro estágio, importante, que deve avançar para a ampliação da compreensão dos textos. Nisso, mesmo a quantidade da leitura pode contribuir.
O foco apenas na quantidade, ainda que evidentemente limitado, auxilia na ampliação do vocabulário, da erudição, do conhecimento geral, facilitando assim os processos de associação de ideias e incrementando a comunicabilidade pessoal, tanto na habilidade oral quanto na escrita – já que desenvolve capacidade de se expressar de maneira mais precisa. Ainda que seja óbvia a necessidade de se qualificar o que se lê.
Annie Kidder da associação Pessoas para a Educação (“People for Education”) adverte que tem se falado demais no processo mecânico da leitura e não o suficiente sobre o entendimento que a leitura desempenha e o que ela ajuda no autoconhecimento e da na compreensão da própria cultura, na conexão com as outras pessoas e na participação democrática. Ou seja, a leitura tem um papel fundamental para a autocompreensão do ser humano, considerando individual e contextualmente.
Afora algum preconceito sobre serem os livros elitistas, antipráticos se comparados às leituras digitais, e facilmente desatualizados, pesquisas na área da ciência cognitiva tem promovido uma reavaliação sobre o valor e o potencial da leitura. Segundo o professor Raymond Mar da Universidade de York, “começa-se a perceber como a leitura pode fazer de nós cidadãos também moralmente melhores”. Isso provavelmente devido à melhoria na compreensão do mundo e da sua conexão pessoal com o mundo, tornando o cidadão mais lúcido da implicação dos seus atos.
Disso tudo, pode-se perceber que a leitura é um potencializador do projeto de vida, qualificando tanto o planejamento quanto facilitando o discernimento no processo de realização, otimizando as decisões e escolhas corretas e dando condições para melhorar a relação do indivíduo consigo e com as demais pessoas no mundo – até o sentido de mundo se torna mais rico. De modo que, em regra, parece que vale a pena investir mais tempo na leitura.
Fonte das informações e citações: ALLEMANG, John. Book Cound Aims to Show That Books Count. In: The Globe and Mail (Canada´s National Newspaper), quarta-feira, 12 de janeiro de 2010, p. A3.
Gustavo Vieira

A leitura deve se tornar um hábito com horário reservado, digo isso por experiência própria. Se não existir um compromisso, sempre existirão coisas que tomam o primeiro lugar da atenção. Gostei muito do texto e me fez reavaliar alguns padrões de leitura.
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