
Da metade do século XX para o início do século XXI a sociedade humana passou da extrema escassez à abundância, estabelecendo novos desafios à concretização do projeto de vida pessoal e grupal. Uma coisa é definir e manter objetivos quando há poucas opções e oportunidades, o que facilita sobremaneira a manutenção do foco. No entanto, a multiplicação de possibilidades da contemporaneidade cria novos desafios que precisam ser enfrentados.
Alguns dados evidenciam a transição da sociedade de escassez para a sociedade da abundância: o declínio da desnutrição como problema de saúde pública mundial e a ascensão da obesidade em seu lugar; o crescimento contínuo da indústria de luxo no Brasil nos últimos anos; o aumento descomunal do mercado de supérfluos nos petshops; o crescimento surpreendente do número de milionários; a ampliação da indústria dos cosméticos e do mercado das cirurgias estéticas não restaurativas; a multiplicação exponencial das informações na internet; as enormes filas para o lançamento de novidades tecnológicas, e por aí vai.
Em regra, a qualidade de vida melhorou, muito, elevando também, significativamente, a expectativa de vida em algumas dezenas de anos (trazendo aí também novos desafios e oportunidades, afinal, o que fazer com os anos a mais de vida?). Segundo dados do IBGE, em 1980 a expectativa de vida média do brasileiro era de 62 anos, e agora em 2010 chegou a 73 anos (69 anos para os homens, 77 para as mulheres).
Essa abundância, infelizmente, não quer dizer a superação completa da escassez, que ainda existe, e muita. O novo problema coletivo diz respeito à distribuição correta e adequada dos benefícios. Portanto, na abundância há responsabilidades coletivas inafastáveis (ambientais e sociais), que precisam ser recompostas tanto pelos sistemas públicos estatais quanto por meios privados.
Todavia, isso também afeta o projeto de vida das pessoas, numa perspectiva macro ou micro. Da mesma maneira que os aportes para a vida das pessoas podem ser maiores, com amplas facilidades, isso tudo não necessariamente se converterá em realizações. Afinal, as oportunidades de desvios também se multiplicaram. E muito. A internet é um bom exemplo disso: muitas pessoas acessam sabendo o porquê, mas no meio do caminho já perdem o seu rumo, e vão abrindo as abas, links, emails spams e redistribuindo, batendo papo pelo msn/skype/googletalk/icq/facebook/twitter, e acaba levando muito mais tempo que o necessário, se é que mantém em mente, até desligar o computador, a razão primeira de sua consulta. Nas aparentes facilidades, encontram-se adversidades.
Resta necessário questionarmos, individualmente, as condições individuais de manter o foco, melhor na abundância ou na escassez, qual a situação atual e qual a sua condição, entre o uso adequado dos recursos disponíveis e o perdularismo onipresente.
Gustavo Vieira
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Concordo contigo Gustavo. A pessoa que prioriza, tem auto-organização, vontade e é focada nos seus objetivos aproveita os recursos disponíveis de um modo sadio. É um paradoxo: ao mesmo tempo que há muitos recursos disponíveis, também existem mais possibilidades de desviarmos das nossas tarefas.
ResponderExcluirmichel chad